(um pequeno trecho)
Que senha está lá dentro?
É a cinco.
A minha era nove. Havia muito tempo ainda pela frente.
Chegaram cinco pessoas sem senha querendo falar com alguém da sala. Ficaram à espera, porque ninguém ousava abrir aquela porta. Parecia que nos encontrávamos diante de um santuário. Se alguém tocasse na porta seria fulminado por um raio imediatamente (não estou sendo irônico, apenas sarcástico).
Quando a moça abriu a porta, os cinco entregaram humildemente uns papéis para ela. Depois fiquei sabendo que eles eram alguns dos felizardos que haviam ultrapassado a fase em que me encontrava e queriam pegar os cheques para sacar a grana do pecúlio no banco.
Alguém disse, à guisa de desculpa por furar a fila:
Nós viemos pegar o cheque do pecúlio.
Perguntei:
Quanto tempo demorou pra vocês pegarem o cheque?
Um mês, mais ou menos.
Moleza. Para quem esperava há alguns meses, um mês a mais, um mês a menos, era mixaria.
E onde vocês vão pegar o dinheiro?
No Banco do Brasil aí embaixo.
Receberam os cheques e desceram felizes para mais uma fila. Agora no Banco do Brasil. A última em busca do pecúlio.
A conversa continuou entre o pessoal do banco. Dei algumas voltas, vi a sala de pedir aposentadoria cheia de gente (são 15 senhas por dia nessa sala).
Muito tempo depois:
Número nove.
Levantei confiante: esta seria a última vez que eu entraria nesta sala para resolver o problema de meu pecúlio. Quase fiquei contente. Mas precisava ficar atento para um eventual contratempo. Calma. Era necessário muita calma para conseguir o desejado. Entreguei a senha para a mesma moça das filas anteriores, cumprimentei-a com um bom dia falso e caminhei para a cadeira em frente à sua mesa.
Ela examinou tudo de novo. Os documentos da faculdade de Pouso Alegre, ela disse estarem certos. Logo após passou a examinar os da prefeitura. Mostrei os originais e as cópias dos holerites e o atestado com os meses de fevereiro de 89 a janeiro de 90. Entreguei o documento com a garantia da Prefeitura de Campinas de eu ter trabalhado lá e descontado para a Previdência. Enquanto ela lia, eu torcia para que tudo estivesse certo. De repente, ela disse:
Espera um pouco.
E saiu. Acho que foi mostrar o documento para algum chefe. Uns minutos depois voltava. Deu um sorriso. Só podia ser de satisfação (provavelmente pensou: Quero ver ele sair dessa). Sentou-se na cadeira, apoiou os braços na mesa e disse:
A prefeitura está pedindo o dinheiro do INSS de volta. Acho que você não vai receber nada.
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